Este ano tive um Natal diferente do que estava acostumado: todas as festividades com a minha família aconteceram no sítio do meu pai, que ele tem desde quando eu era bem molequinho. É um lugar simples que me traz muitas boas lembranças. Este sítio por coincidência do destino é vizinho do lugar onde minha mãe foi criada e morou boa parte da sua vida, portanto, ela e consequentemente nós, conhecemos todo mundo ali nas redondezas e sempre que vamos pra lá nos reunimos para prosear, contar histórias e jogar truco! No dia 25 de dezembro não foi diferente. Fomos para a casa de nossos vizinhos: a família Corrêa. Como toda e qualquer reunião de amigos na roça, muita fartura e variedade nas formas e tigelas em cima do fogão de lenha. Quem é mineiro sabe do que eu estou falando, né? Leitoa, frango, tutu de feijão, enfim...
De todos que estavam lá, uma figura se destacava: um velhinho de 95 anos, de uma simpatia ímpar, alegria maior ainda, que não dispensa (e diz ele que nunca dispensou) uma pinguinha a qualquer hora do dia. Ele é pai, sogro e avô dos anfitriões. Entre uma música e outra no violão, ouvi umas rimas. Na hora parei de tocar e olhei pra ver quem tava falando aquilo tudo. Me surpreendi e fiquei muito feliz quando vi que o dono daqueles versos era o Sr. Vitor Corrêa, o velhinho que eu falei a pouco. Ainda bem que eu tinha uma câmera em mãos naquele momento e pude registrar isso. Pedi pro Sr. Vitor repetir o poema pra que eu pudesse filmar, e ele não hesitou.
Mary Shelley, uma escritora britância de alguns séculos atrás disse que "a poesia imortaliza tudo que há de melhor e mais belo no mundo." Eu concordo plenamente, realmente as melhores e mais belas coisas da vida podem ser imortalizadas com um poema. Nesse caso, talvez nem tanto pelas palavras, mas pelo exemplo que esse senhor nos dá de que viver é ser feliz. Que ter 95 anos não significa estar esperando a morte chegar, e sim estar torcendo pra que ela não chegue logo.
Um muito obrigado a toda família do Sr. Vitor, que sempre nos recebeu muito bem em sua casa e a ele próprio, que talvez não visite este blog por não ser ligado a tecnologia e internet, mas mesmo assim, devo agradecer. Por ser tão forte, alegre, vivo e lúcido! Que esse vídeo sirva de exemplo aos que acham que a vida não vale a pena, por qualquer motivo que seja. Se você, com seus 18, 20, 30 anos já está pensando em desistir por conta dos problemas da vida, imagine quanta coisa esse homem já passou em noventa e cinco anos de existência?
Espero que gostem deste vídeo, que representa, acima de tudo, a vida. Mas também representa a cultura que o Brasil muitas vezes esquece, ou nem chega a conhecer.
Adeus Casamento
(Vitor Corrêa)
(Vitor Corrêa)
Eu já ando convidando pra ir no meu casamento,
A moça eu num conheço,
Nóis num temos conhecimento.
Eu sou caboclo trabaiadô,
Todos banco que eu vejo é meus instrumento.
A carça tem duas rapadura
No lugar dos assento;
A camisa não tem cacunda,
Isso é pra tomar um vento.
Eu já ando convidando pra ir no meu casamento
A moça eu num conheço,
Nóis num temos conhecimento.
Eu tenho meu chapéu caro
Que custou miliquinhento,
Lenço grande no pescoço
Da corzinha de pimenta.
Fui descendo a rua abaixo
Muito alegre, muito atento
Mas cheguei na casa da moça
Já cheguei e bati na porta...
Logo ela veio de lá de dentro
E eu já falei do casamento
Ela foi depressa e me respondeu:
"Confiança eu num te dou,
Vai pros quinto, pros trezento!"
Eu saí num trote duro, numa marcha de jumento
Casar eu não caso mais, acabou meu sofrimento.
A moça eu num conheço,
Nóis num temos conhecimento.
Eu sou caboclo trabaiadô,
Todos banco que eu vejo é meus instrumento.
A carça tem duas rapadura
No lugar dos assento;
A camisa não tem cacunda,
Isso é pra tomar um vento.
Eu já ando convidando pra ir no meu casamento
A moça eu num conheço,
Nóis num temos conhecimento.
Eu tenho meu chapéu caro
Que custou miliquinhento,
Lenço grande no pescoço
Da corzinha de pimenta.
Fui descendo a rua abaixo
Muito alegre, muito atento
Mas cheguei na casa da moça
Já cheguei e bati na porta...
Logo ela veio de lá de dentro
E eu já falei do casamento
Ela foi depressa e me respondeu:
"Confiança eu num te dou,
Vai pros quinto, pros trezento!"
Eu saí num trote duro, numa marcha de jumento
Casar eu não caso mais, acabou meu sofrimento.